
Ao longo da minha experiência no desenvolvimento de software, uma das decisões mais desafiadoras que enfrentei é a escolha da arquitetura adequada para nossos projetos. A arquitetura de software é a espinha dorsal de qualquer aplicação, e a decisão entre optar por uma abordagem simples ou escalável pode ter um impacto significativo no sucesso do projeto.
O contexto importa mais que a tecnologia
Quando iniciamos um novo projeto aqui na Blue Consulting, a tentação de aplicar as melhores práticas e padrões mais modernos é grande. Afinal, queremos construir algo que dure, que escale, que tenha manutenabilidade. Mas a verdade é que a melhor arquitetura não é aquela que usa as tecnologias mais avançadas, mas sim aquela que resolve o problema certo no momento certo.
O dilema surge exatamente aqui: como equilibrar a necessidade de entregar valor rapidamente com a preocupação de não criar uma dívida técnica insustentável? Como saber quando estamos sendo pragmáticos e quando estamos sendo negligentes?
A resposta está em entender profundamente o contexto do negócio antes de abrir o editor de código.
MVP vs Produto Final: estágios diferentes, decisões diferentes
Quando estamos validando uma hipótese
No estágio de MVP, a prioridade é aprender rápido. Precisamos validar se o problema que identificamos realmente existe e se nossa solução faz sentido para o mercado. Nesse momento, over engineering é o maior inimigo da validação.
Não precisamos de microserviços, cache distribuído, filas de mensageria ou arquitetura hexagonal quando ainda não sabemos se alguém vai usar o produto. O risco aqui não é técnico, é de mercado. Precisamos construir o mínimo necessário para testar nossa hipótese e estar prontos para pivotar ou descartar completamente a solução.
A arquitetura ideal para um MVP é aquela que permite iteração rápida e descarte sem dor. Um monólito bem estruturado, com separação clara de responsabilidades, geralmente é mais do que suficiente.
Quando estamos construindo para durar
Agora, quando a validação já foi feita, os usuários estão chegando e o produto começa a ganhar tração, aí sim precisamos pensar em robustez e escalabilidade. Mas atenção: isso não significa reescrever tudo do zero aplicando todos os padrões de arquitetura que você conhece.
A transição do MVP para um produto consolidado deve ser gradual e guiada por métricas reais. Qual parte do sistema está sofrendo com o aumento de carga? Onde a complexidade está dificultando a manutenção? Essas são as áreas que merecem refatoração arquitetural, não o sistema inteiro.
Complexidade vs Volume: entendendo a natureza do problema
Uma das decisões mais importantes é entender que tipo de desafio estamos resolvendo. Nem todo problema é igual, e a arquitetura precisa refletir isso.
Alta complexidade, poucos usuários
Imagine um sistema de gestão hospitalar usado por um único hospital com 50 funcionários. A complexidade de negócio é enorme: prontuários médicos, agendamentos, integrações com equipamentos, regulamentações de saúde, múltiplos perfis de acesso. Mas o volume de requisições é relativamente baixo.
Nesse cenário, a arquitetura precisa lidar com complexidade de domínio, não com escala de infraestrutura. Investir em patterns de Domain-Driven Design, separação clara de bounded contexts e uma boa modelagem de dados faz muito mais sentido do que implementar load balancers e auto-scaling.
O erro comum aqui é focar na infraestrutura quando o desafio real é entender e organizar as regras de negócio.
Simplicidade funcional, alto volume
Por outro lado, considere uma API de encurtamento de URLs. A lógica de negócio é trivial: recebe uma URL longa, gera um hash único, armazena e retorna. Mas se o serviço tem milhões de requisições por dia, a arquitetura precisa ser outra.
Aqui sim faz sentido pensar em cache agressivo, CDN, bancos de dados otimizados para leitura, possível sharding. A complexidade está na escala, não no domínio.
Confundir esses dois cenários é uma das principais causas de over engineering ou under engineering em projetos.
Sinais de over engineering: quando estamos exagerando
Identificar over engineering não é sempre óbvio, especialmente quando estamos animados com uma nova tecnologia ou padrão arquitetural. Aqui vão alguns sinais claros de que podemos estar exagerando:
O tempo de setup supera o tempo de desenvolvimento: Se configurar o ambiente, subir containers, configurar ferramentas de observabilidade e CI/CD leva mais tempo do que implementar a primeira funcionalidade, algo está errado.
Ninguém entende a arquitetura completa: Se apenas uma pessoa do time consegue explicar como tudo funciona junto, a complexidade provavelmente está alta demais. Arquitetura boa é aquela que novos desenvolvedores conseguem compreender em poucos dias.
Estamos resolvendo problemas que não temos: Implementar circuit breakers quando ainda não temos integrações críticas, ou usar event sourcing quando não temos requisitos de auditoria complexos, são exemplos clássicos.
A solução é mais complexa que o problema: Se a arquitetura tem mais componentes do que funcionalidades no produto, é hora de simplificar.
Mudanças simples exigem alterações em vários lugares: Quando adicionar um campo em um formulário requer mudanças em 5 camadas diferentes, a separação de responsabilidades foi longe demais.
Framework de decisão: perguntas práticas
Quando enfrentamos decisões arquiteturais, algumas perguntas ajudam a manter o foco no que realmente importa:
Sobre o estágio do produto:
- Ainda estamos validando a ideia ou já temos product-market fit?
- Qual o custo de pivotar ou descartar essa solução?
- Temos usuários reais esperando por essa funcionalidade?
Sobre volume e escala:
- Quantos usuários simultâneos esperamos nos próximos 6 meses? E em 2 anos?
- Qual o volume de dados que vamos processar?
- Temos requisitos de disponibilidade específicos ou SLAs a cumprir?
Sobre complexidade de domínio:
- As regras de negócio são complexas e mudam frequentemente?
- Existem múltiplos contextos de negócio que precisam ser isolados?
- A lógica de negócio é o core do produto ou é commodity?
Sobre o time:
- Qual o nível de senioridade da equipe?
- Temos capacidade de manter uma arquitetura mais complexa?
- Novos desenvolvedores conseguirão contribuir rapidamente?
Sobre restrições:
- Qual o budget de infraestrutura disponível?
- Temos prazos rígidos de entrega?
- Existem dependências técnicas ou integrações obrigatórias?
Essas perguntas não dão respostas prontas, mas ajudam a enquadrar o problema corretamente. A arquitetura deve emergir das respostas, não preceder as perguntas.
Não existe receita, existe contexto
O maior aprendizado que tivemos ao longo dos anos é que não existe uma arquitetura perfeita que funcione para todos os casos. Existe a arquitetura adequada para aquele contexto específico, naquele momento específico, com aquelas restrições específicas.
Um monólito bem estruturado pode ser mais eficiente e ter mais manutenabilidade que uma arquitetura de microserviços mal planejada. Uma aplicação serverless pode custar mais caro que um servidor dedicado dependendo do padrão de uso. Event-driven architecture pode adicionar complexidade desnecessária se não houver requisitos reais de processamento assíncrono.
A chave está em ser honesto sobre o problema que estamos resolvendo. Começar simples e evoluir conforme necessário é quase sempre melhor do que começar complexo e tentar simplificar depois.
Construir software é um exercício de trade-offs constantes. Entre rapidez e robustez. Entre flexibilidade e simplicidade. Entre custo e performance. A arquitetura é apenas uma ferramenta para navegar esses trade-offs de forma consciente.
Ao meu ver, a melhor decisão arquitetural é aquela que permite entregar valor para o usuário de forma sustentável, considerando as limitações reais do projeto. Nem mais, nem menos.