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O dilema da arquitetura: a busca de equilíbrio entre simplicidade e escalabilidade

Publicado:  at  09:15 AM

O dilema da arquitetura capa

Ao longo da minha experiência no desenvolvimento de software, uma das decisões mais desafiadoras que enfrentei é a escolha da arquitetura adequada para nossos projetos. A arquitetura de software é a espinha dorsal de qualquer aplicação, e a decisão entre optar por uma abordagem simples ou escalável pode ter um impacto significativo no sucesso do projeto.

O contexto importa mais que a tecnologia

Quando iniciamos um novo projeto aqui na Blue Consulting, a tentação de aplicar as melhores práticas e padrões mais modernos é grande. Afinal, queremos construir algo que dure, que escale, que tenha manutenabilidade. Mas a verdade é que a melhor arquitetura não é aquela que usa as tecnologias mais avançadas, mas sim aquela que resolve o problema certo no momento certo.

O dilema surge exatamente aqui: como equilibrar a necessidade de entregar valor rapidamente com a preocupação de não criar uma dívida técnica insustentável? Como saber quando estamos sendo pragmáticos e quando estamos sendo negligentes?

A resposta está em entender profundamente o contexto do negócio antes de abrir o editor de código.

MVP vs Produto Final: estágios diferentes, decisões diferentes

Quando estamos validando uma hipótese

No estágio de MVP, a prioridade é aprender rápido. Precisamos validar se o problema que identificamos realmente existe e se nossa solução faz sentido para o mercado. Nesse momento, over engineering é o maior inimigo da validação.

Não precisamos de microserviços, cache distribuído, filas de mensageria ou arquitetura hexagonal quando ainda não sabemos se alguém vai usar o produto. O risco aqui não é técnico, é de mercado. Precisamos construir o mínimo necessário para testar nossa hipótese e estar prontos para pivotar ou descartar completamente a solução.

A arquitetura ideal para um MVP é aquela que permite iteração rápida e descarte sem dor. Um monólito bem estruturado, com separação clara de responsabilidades, geralmente é mais do que suficiente.

Quando estamos construindo para durar

Agora, quando a validação já foi feita, os usuários estão chegando e o produto começa a ganhar tração, aí sim precisamos pensar em robustez e escalabilidade. Mas atenção: isso não significa reescrever tudo do zero aplicando todos os padrões de arquitetura que você conhece.

A transição do MVP para um produto consolidado deve ser gradual e guiada por métricas reais. Qual parte do sistema está sofrendo com o aumento de carga? Onde a complexidade está dificultando a manutenção? Essas são as áreas que merecem refatoração arquitetural, não o sistema inteiro.

Complexidade vs Volume: entendendo a natureza do problema

Uma das decisões mais importantes é entender que tipo de desafio estamos resolvendo. Nem todo problema é igual, e a arquitetura precisa refletir isso.

Alta complexidade, poucos usuários

Imagine um sistema de gestão hospitalar usado por um único hospital com 50 funcionários. A complexidade de negócio é enorme: prontuários médicos, agendamentos, integrações com equipamentos, regulamentações de saúde, múltiplos perfis de acesso. Mas o volume de requisições é relativamente baixo.

Nesse cenário, a arquitetura precisa lidar com complexidade de domínio, não com escala de infraestrutura. Investir em patterns de Domain-Driven Design, separação clara de bounded contexts e uma boa modelagem de dados faz muito mais sentido do que implementar load balancers e auto-scaling.

O erro comum aqui é focar na infraestrutura quando o desafio real é entender e organizar as regras de negócio.

Simplicidade funcional, alto volume

Por outro lado, considere uma API de encurtamento de URLs. A lógica de negócio é trivial: recebe uma URL longa, gera um hash único, armazena e retorna. Mas se o serviço tem milhões de requisições por dia, a arquitetura precisa ser outra.

Aqui sim faz sentido pensar em cache agressivo, CDN, bancos de dados otimizados para leitura, possível sharding. A complexidade está na escala, não no domínio.

Confundir esses dois cenários é uma das principais causas de over engineering ou under engineering em projetos.

Sinais de over engineering: quando estamos exagerando

Identificar over engineering não é sempre óbvio, especialmente quando estamos animados com uma nova tecnologia ou padrão arquitetural. Aqui vão alguns sinais claros de que podemos estar exagerando:

O tempo de setup supera o tempo de desenvolvimento: Se configurar o ambiente, subir containers, configurar ferramentas de observabilidade e CI/CD leva mais tempo do que implementar a primeira funcionalidade, algo está errado.

Ninguém entende a arquitetura completa: Se apenas uma pessoa do time consegue explicar como tudo funciona junto, a complexidade provavelmente está alta demais. Arquitetura boa é aquela que novos desenvolvedores conseguem compreender em poucos dias.

Estamos resolvendo problemas que não temos: Implementar circuit breakers quando ainda não temos integrações críticas, ou usar event sourcing quando não temos requisitos de auditoria complexos, são exemplos clássicos.

A solução é mais complexa que o problema: Se a arquitetura tem mais componentes do que funcionalidades no produto, é hora de simplificar.

Mudanças simples exigem alterações em vários lugares: Quando adicionar um campo em um formulário requer mudanças em 5 camadas diferentes, a separação de responsabilidades foi longe demais.

Framework de decisão: perguntas práticas

Quando enfrentamos decisões arquiteturais, algumas perguntas ajudam a manter o foco no que realmente importa:

Sobre o estágio do produto:

Sobre volume e escala:

Sobre complexidade de domínio:

Sobre o time:

Sobre restrições:

Essas perguntas não dão respostas prontas, mas ajudam a enquadrar o problema corretamente. A arquitetura deve emergir das respostas, não preceder as perguntas.

Não existe receita, existe contexto

O maior aprendizado que tivemos ao longo dos anos é que não existe uma arquitetura perfeita que funcione para todos os casos. Existe a arquitetura adequada para aquele contexto específico, naquele momento específico, com aquelas restrições específicas.

Um monólito bem estruturado pode ser mais eficiente e ter mais manutenabilidade que uma arquitetura de microserviços mal planejada. Uma aplicação serverless pode custar mais caro que um servidor dedicado dependendo do padrão de uso. Event-driven architecture pode adicionar complexidade desnecessária se não houver requisitos reais de processamento assíncrono.

A chave está em ser honesto sobre o problema que estamos resolvendo. Começar simples e evoluir conforme necessário é quase sempre melhor do que começar complexo e tentar simplificar depois.

Construir software é um exercício de trade-offs constantes. Entre rapidez e robustez. Entre flexibilidade e simplicidade. Entre custo e performance. A arquitetura é apenas uma ferramenta para navegar esses trade-offs de forma consciente.

Ao meu ver, a melhor decisão arquitetural é aquela que permite entregar valor para o usuário de forma sustentável, considerando as limitações reais do projeto. Nem mais, nem menos.



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